Assim do nada…com nada!

Andava eu nas minhas lides e azáfamas diárias, eis senão quando… encontro uma farmácia tradicional fabulosa. Tinha remédios para TUDO! A batata africana era o ingrediente-mestre que a mamã e o papá, donos da barraquinha, não se cansavam de descascar, e despedaçar e espremer e embutir…

Comecei a perguntar para que servia isto e aquilo, e aqueloutro e encontrei remédio para mal-de-humor, mal-de-amor, mal de barriga, xarope para qualquer doença infantil, medicamento para o HIV, para a tosse e para o espirro, para a febre e a dor de dente, para alisar a pele e fortalecer o cabelo!

O dono da farmácia lá me achou piada e foi buscar a sua guitarra. Perguntou se tocava. Eu disse “sim!”. Peguei na dita e… nada! Não saiu nada! O que tinha nas mãos era um objecto parecido com uma guitarra que, talvez em tempos, já tivesse sido guitarra… uma caixa-sombra-vaga-esboço de viola, umas quantas cordas poucas presas com um prego aqui e outro ali, rachas de ar a decorar a madeira… ainda fiz um esforço, mas nada! Não saiu nada!

Mas, assim do nada, o homem, a olhar-me desconfiado, tira-me o objecto da mão e faz milagre:

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Gloriosa!!! – I capítulo

Faz dia 15 dois meses que sai daí – Parece-me já um ano, de tantas coisas que vivi e de tantas saudades que já tenho! Depois de muitas insistências para contar as minhas histórias, segui o exemplo do meu “antecessor” Alberto (quem eu vim substituir na Um Pequeno Gesto, através do Programa Inov Mundus) e criei este blog para ir deixando migalhas das coisas maravilhosas, surpreendentes, diferentes, únicas que tenho vivido!

1ªs Impressões…

De momento só me lembro de palavras como tanto tanto, como muito muito! É tudo muito grande, é tudo muito pobre, muita fome, muita doença (como eles falam do HIV), muitos sorrisos, muito verde, muito lento, muito longe, muita gente, muitos mosquitos, muitos bebés, muita morte, muitos buracos, muita lama, muita chuva, muito calor, muita música, muita inocência, muita gratidão, muita curiosidade, muito muito, tudo muito! Moçambique abunda! Tudo é imenso, tal como a minha alegria e espanto e querer de estar aqui, e a minha tristeza, revolta ou frustração de saber que o que poderei fazer será sempre pouco… um pequeno gesto…

Nunca me esquecerei do momento em que o avião começou a chegar ao destino. A paisagem verde-verde e plana, com borbotos de árvore a saírem aqui e ali, e palhotas perdidas no meio do nada. De repente, prédios altíssimos com um mar-lagoa por trás e uma luz magnifica… Fez-me lembrar as imagens turísticas de Miami…aparências! Ao sair do avião: uma chapada de ar quente e húmido, igual à que senti em S.Tomé quando tinha dez anos.

De carro, pelo Maputo, foi como se não estivesse ali. Eram sete da manhã, e depois de dez horas de voo sem dormir, tudo cheira a sonho. Pelo vidro passava-me nos olhos um mundo novo: o trânsito à esquerda, o caos total, gente rota e atarefada no meio de anúncios gigantes da Mcel, da Vodacon ou de cremes para clarear a pele, carros de caixa aberta sempre com gente em pé, com gente sentada em motas, com galinhas e cabritos a passar… e as Acácias! Ah, as Acácias! Árvores fabulosas de flor vermelha a decorar as Avenidas já podres de tanto uso. Descobri mais tarde, no Chokwè, sem aquele cheiro nauseabundo do caótico Maputo, que as Acácias têm um cheiro adocicado indescritível!

A caminho de Xai-Xai, onde vivo agora, adormeci. Acordei a meio da viagem, na Macia, com uns 10 miúdos a estenderem-nos latas de Coca-cola, latas de Fanta Uva, sacos de castanha (caju) para que comprássemos. Cheguei a África!

Nos primeiros 15 dias andei sempre de um lado para o outro, a visitar os projectos que coordenarei, com a mãe da minha chefe que já não vinha cá há 3 anos. Levantávamo-nos por volta das sete e deitávamo-nos tardíssimo, sempre a trabalhar.

No primeiro dia ficámos pela Escolinha do André, que é onde fiquei a viver até a minha casa ficar pronta, esta mesma semana. A Escolinha foi criada pelas Irmãs Dominicanas e é nesse espaço que vivem e dão aulas / alimentação às mais de 200 crianças desfavorecidas que por ali passam. Sabem o nome de todas! Tenho hoje uma ideia completamente diferente do “clero”. Qual evangelização? Seja católico, seja, muçulmano, seja whatever, as Irmãs vivem para estes miúdos. Não é um trabalho das nove às cinco – a vida delas, por inteiro, é dedicada, em missão permanente.

Além do mais, por nunca ter tido muito contacto com a ordem religiosa tinha uma ideia, vá… um pouco denegrida da mesma. Admito que as gentes daqui sejam “mais acessíveis”, mas afinal as freiras são pessoas como todas as outras (pasme-se!!!), com ideias próprias, com vontades e desejos, com as suas alegrias e tristezas… a diferença mais flagrante é de facto rezarem bastante e preocuparem-se com a vida comunitária: sua e exterior!

Com as irmãs aprendi já a beber laurentinas e a assistir entusiasticamente a jogos de futebol (ainda hoje todas me ligaram a dar os parabéns pelo Benfica!!!!!), a comer caju (aqui chamam castanha) e mandioca a custo de qualquer pretexto, a cantar musicas alegres antes da refeição (em modo quase gospel), a reconhecer árvores e arbustos que fazem bem aquilo e aqueloutro, a costurar numa antiga máquina Singer de pedal, enfim… ah! E a rir desalmadamente com anedotas clericais:) Um brinde à Irmã Isabel  – freira Moçambicana de peso. Por onde passa parece que as pessoas baixam a cabeça, por respeito! É muito mandona, senhora do seu nariz, mas muito divertida e coração de ouro. Foi com ela que surgiu a ideia dos padrinhos que a Sara Vicente (minha chefe) pegou e implementou! Um brinde à Irmã Stella, portuguesinha acelerada que trata dos assuntos logísticos e dos animais (lá em casa têm porcos, cães, gatos, tartarugas, galinhas, osgas, formigas gigantes, baratas, ratos de vez em quando e, agora, uma cabrita prenhe). E um brinde à querida Irmã Emanuel, ali da zona de Aveiro, que conta historias como ninguém! Pelo que sei já passou por guerras, já esteve no Brasil e Angola, conhece bem o povo, vai as aldeias assistir aos rituais locais… uma autêntica Sherazade que me emprestou a Bíblia para eu descobrir. Com as historias que me indica, tenho descoberto um documento literário lindíssimo!

Mas voltando à escolinha… neste espaço as crianças têm aulas até à 6ª classe (primaria complementar), e com o apoio da UPG (Um Pequeno Gesto: http://www.umpequenogesto.org), mata-bicham (tomam o pequeno almoço), almoçam, recebem uniformes (obrigatório) e material escolar e têm acesso, quando há recursos, a aulas de apoio / cursos de formação. Eu própria tenho dado apoio de vez em quando ao nível do inglês e da Informática (e até já ensinei musicas em francês). Como não posso estar a tempo inteiro neste projecto, porque existem mais uns quantos para monitorizar, torna-se complicado dinamizar tudo o que seria ideal. Este mês chegará uma voluntária para ficar um mês na escolinha – vamos arrancar com a costura e cestaria!

O segundo projecto que visitei foi o do Orfanato de Chiaquelane. Impressionante! O primeiro impacto foi brutal! As primeiras coisas que vi foram brinquedos escassos e partidos, espalhados pela terra, os miúdos ranhosos, barrigudos e cheios de moscas pousadas na cara, as roupas rasgadas…  depois comecei a ver com outros olhos. E agora que já lá fui mais algumas vezes já não tenho o coração tão apertado. Na realidade os miúdos são super bem educados (pelas irmãs Isaura e Artemiza), e bem tratados. Estes órfãos, que vêm de pais mortos com sida, ou são abandonados, vivem em família e aprendem a ser família., com muito carinho à mistura. Partilham tudo. Até mesmo alguns presentes dos padrinhos (rebuçados, lapis, etc) , quando são em demasia para uns, são compartidos com outros. E cantam! Cantam e encantam! “ Fui levar a minha tia à Macia, hip hop…” / “Bem vindos a esta nossa linda casa!” É de ficar com a lágrima de comoção no canto da alma! Se andam sujos é porque a terra do orfanato é muito escura e eles adoram brincar em frente à casa: a correr, a saltar, a fazer castelos na areia… é que todos eles têm roupa limpa e tomam banho todos os dias. Inclusive, antes de comer, lavam as mãos e cantam! E comer? Até dá gosto de ver como abrem aquelas bocas pequeninas para meter o prato quase todo de uma vez! Tenho muito trabalho no Orfanato. Pormenores técnicos! Arranjar técnicos de confiança é complicado – todos querem o seu quinhão com o mínimo de trabalho. Até agora ainda só conheci o Sr. Sebastião, mas o coitado, por ser tão bom, tem de se desdobrar em mil para acudir a todos os trabalhos que lhe solicitam e que ele não pode dizer que não porque só o querem a ele. Eu já andei lá às voltas, armada em técnica, a subir escadotes, a  comparar Voltagens e Amperagens, mas não é fácil! Espero daqui a um mês ter isto resolvido. A ver vamos!

Bom… desculpem minha gente mas morro de sono. Aqui fica de noite às cinco e meia, amanhece aí as cinco da matina e eu levanto-me por volta das seis/sete, e nunca paro!

Houve já muitos que refilaram com a falta de notícias, mas a verdade é que para além do cansaço e da falta de tempo, às vezes não há electricidade… e a minha internet ainda não é decente. Aqui tudo é ao relanti! Está tudo muito atrasado. Não por questões genéticas ou raciais, ou até mesmo climatéricas, como muitos teimam em insistir, mas por uma simples questão cultural que desencadeia num quadro paradoxal: se por um lado é um facto que esta gente tem muitos recursos e poderiam estar a viver muito melhor, mas não se mexem, não aproveitam o que têm, desaproveitam oportunidades; por outro lado, em termos culturais, este povo foi durante anos e anos suprimido, sem ter acesso a qualquer tipo de educação ou contacto com a “modernidade” e os processos de desenvolvimento que lhe são inerentes! A única solução que têm é, como indica o próprio hino nacional, “pedra a pedra construir um novo dia”, aprender com os erros e com as outras culturas, e construir mecanismos de crescimento adaptados a realidade local, como nós ocidentais fomos fazendo desde há umas centenas de anos atrás! (Esta é a minha miserável opinião, como diria a Marocas, que fica em aberto, receptiva a discussão e a novas perspectivas, à medida que o tempo for passando e eu me possa entranhar mais nesta terra!)

Mas estava eu a dizer que morro de sono e amanhã é mais um dia de labuta. Agora que as emoções iniciais começam a amainar (?), acho que posso prometer mais posts com maior frequência. Por isso, não percam os próximos episódios em que falarei de outros projectos UPG e das minhas experiências fabulosas com a fauna e flora locais, com a comida maravilhosa, com este povo sorridente, com os chapas superlotados, com a lingua changana e muito, muito mais!:)

Um beijinho a todos,

Ana João

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